Mas agora não consegue odiá-lo, não consegue sequer mostrar-lhe mágoa, rancor, raiva. Porque já não os sente. Não consegue ficar indiferente à sua presença. Porque ele não lhe é indiferente, apesar de estar sempre a trabalhar os sentimentos, para que a sua presença não a deixe descompensada e frágil emocionalmente. Não consegue fingir que não o vê. Porque vê-o sempre, mesmo ao longe, mesmo em passagem, mesmo que não esteja a procurá-lo.
Vê-o ao longe e fica a ver se ele está bem. Vê-o ao perto e sofre em silêncio quando ele finge que não a vê. Vê-o e gosta de o ver, de sabê-lo bem. Não quer aproximar-se demasiado, para não ser enxotada, como se faz às moscas e aos animais não desejados. E vive a angústia de querer falar-lhe e de o sentir distante, mesmo na sua presença. Não sabe o que fazer, com o medo de que, o que fizer, ele se afaste e a ignore. Já sentiu isso tantas vezes. E já lhe disse isso mesmo outras tantas. De nada lhe tem servido falar-lhe e dizer-lhe que não gosta de se sentir ignorada por ele. Ele continua a afirmar que não faz isso, bem pelo contrário, que tenta resguardar-se, porque a presença dela ainda mexe com ele e que não é de ferro e que continua a adorá-la como no dia em que se encontraram na casa dela.
As palavras valem mais quando acompanhadas por acções consonantes. As palavras são meras manifestações das intensões, mas as acções, aquilo que fazemos, caracteriza muito melhor o que pensamos do que o que manifestamos verbalmente. Ele diz ainda adorá-la e diz sentir-se vulnerável com a sua presença, mas, no entanto, mostra-se distante e imperturbável.
Ela sabe e sente que o ignorar e o não manifestar a presença doem mais do que manifestações de desprezo. Já tentou usar o mesmo veneno, mas isso apenas a mata a ela, só em pensar que ele poderá ficar magoado por ser menos bem recebido por ela.
Ainda recordava o sabor, o toque, o cheiro e o som do primeiro beijo. Como será um beijo de despedida? Terá o mesmo sabor?
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